Tuesday, May 29, 2012

Invasao da musica italiana no Brasil - 1963-1964

1963

'Legata a un granello di sabbia' ou 'Presa a um grãozinho de areia', gravada por Nico Fidenco em 1961 fez grande sucesso na Europa. Isso fez com que a RCA Victor lançasse a música e um LP inteiro do cantor em final de 1962. Em Janeiro de 1963, o Nico Fidenco (BBL-124) já está entre os mais vendidos em São Paulo.

Em 27 fevereiro 1963 estreia em São Paulo, nos Cines Astor e Paisandú, "Candelabro Italiano" (Rome Adventure) filme norte-americano rodado em Roma em 1961, com Troy DonahueSuzanne Pleshette, Angie Dickson e Rossano Brazzi. Um melodrama que não passava de uma desculpa para o diretor mostrar os melhores pontos turísticos de Roma. A certa altura, Troy & Suzanne vão a um night-club onde Emilio Pericoli canta "Al di là", canção vencedora do Festival di San Remo daquele ano, defendida por Luciano Tajoli e Betty Curtis, separadamente.

'Candelabro Italiano' encanta as multidões que acorrem aos cinemas para ve-lo. A Warner Brothers Records lança, através da Odeon, o LP da trilha-sonora e um compacto 'Al di là' com Emilio Pericoli,  que vai p'ro 1o. posto em poucas semanas. Pode-se dizer que a Invasão Italiana havia começado. O que aconteceu posteriormente foi resultado desses 2 mega-sucessos que abriram a cabeça dos brasileiros para uma sonoridade nova vinda da Italia. 
LPs mais vendidos em S.Paulo em Janeiro de 1963 (Diario da Noite) traz Nico Fidenco em 2o. lugar. 
'Candelabro italiano', rodado em 1961, lançado nos USA em 5 março 1962, foi visto pelos brasileiros 1 ano mais tarde, o que era praxe naquele tempo. tudo meio defasado . A canção que ganhou o Festival di San Remo em fevereiro 1961 só fez sucesso nos USA em agosto 1962, devido ao sucesso do filme por lá... que só foi lançado por aqui em fevereiro 1963, abrindo as comportas para uma enxurrada de sucessos provenientes da Península. 

Compacto-simples da trilha-sonora de 'O Candelabro Italiano', lançado pela Odeon/WB, com Emilio Pericoli cantando 'Al di là' foi direto para o primeiro lugar, abrindo assim um 'flanco' para o sucesso de outros discos gravados na Península.


'Legata a un granello di sabbia' que traduzia-se como 'Prêsa a um grãozinho de areia' foi sensação na Europa em 1961, chegando ao Brasil em 1962, sendo, junto de 'Al di là' o início do que se chamaria de 'Invasão da Musica Italiana'. Note que fotos de Nico Fidenco raramente apareciam nas capas de seus discos, pois ele já estava se tornando precocemente calvo e seu público era formado predominantemente de jovens.
Julho 1963 - compacto-duplo Rita Pavone com 4 sucessos faz sensação entre a juventude brasileira. 'La partita di pallone', um rock bem a gosto dos 'teens'; 'Come te non c'è nessuno' uma balada feita no céu para aqueles que gostavam de dançar coladinhos; 'Alla mia età' outra balada sonhadora, e o rock 'Clementine Chérie' para completar o binômio rock & balada.
compacto-duplo de Rita Pavone lançado pela RCA Victor em julho de 1963, veio só confirmar que a moderna musica italiana tinha vindo para ficar uns bons anos. 
5 Agosto 1963 - Diário da Noite - Henrique Gataldello da RCA Victor recebe diploma conferido à Nico Fidenco como o melhor LP de musica italiana lançado em 1963; maestro Exposito lança LP (BBL-1256) de sucessos já contendo 'Al di là'. 
band-leader argentino Exposito lança LP pela RCA Victor em Julho 1963 já contendo 'Al di là'; Iris Bruzzi é a garota da capa.
9 Agosto 1963 (Diario da Noite) - RCA lança 'Canta Nico Fidenco', o 2o. LP de Nico contendo o sucesso 'Tutta la gente

16 Setembro 1963 estreia Nico Fidenco no palco do Teatro Record de S.Paulo, tendo Norma Herrera, cantora mexicana como abertura. 

Antes de 1963 terminar, a RCA Victor já tinha lançado os LPs de:

Sergio Endrigo (BBL-142);
Rita Pavone (BBL-147), além de um
Nico Fidenco canta  (BBL-149) 2o. LP de Nico, contendo 'Tutta la gente'as coletâneas:
'Italia moderna' (BBL-133) 
'Alta Pressione' (BBL-150).  

Nunca se tinha visto e ouvido tantos discos italianos assim no Brasil.

1964

Peppino Di Capri, que já vendia discos para um seleto público apreciador do twist desde 1962, explodiu com 'Roberta', lindíssima balada que conquistou a todos os brasileiros. Di Capri já tinha se apresentado no Teatro Record durante a onda do twist, mas agora ele estava identificado com a moderna musica italiana e fazia parte do 'exercito' que conquistava nossa terra. 
Ninguem mais segurava a enxurrada de músicas italianas tocadas nas radios. A RCA Victor lançou 'Gioventù', mais um LP de coletâneas de sucessos assim que o Carnaval passou. A coletânea foi p'ro 1o. lugar absoluto tendo 'Se mi vuoi lasciare' com Michele como carro-chefe, mas 'Annamaria' [Sergio Endrigo] e 'O mio Signore' [Edoardo Vianello] também tocaram muito nas radios do país.

A Odeon também lançou suas coletâneas italianas. Até a nacionalissima Chantecler, sendo representante da italiana Ricordi, aqui lançava tudo que podia, desde Bobby Solo com  'Una lacrima sul viso' , Ornella Vanoni com a lindíssima 'Siamo pagliacci'  [vide letra no final da página] até LPs de coletâneas como 'Parata d' Estate'

Nico Fidenco e seu segundo grande sucesso no Brasil, 'Tutta la gente'.

Nico Fidenco foi o primeiro astro italiano a vir se apresentar entre nós. Logo em seguida, em março de 1964, três semanas antes do funesto Golpe Militar, veio o incrível Sergio Endrigo se apresentar no Teatro Record em São Paulo.

Leia mais sobre as tournees de Nico Fidenco e outros cantores italianos em:

http://cartazes-internacionais-no-brasil.blogspot.com.br/

'Sapore di sale' com Gino Paoli, uma das músicas mais bonitas vinda da Península, subiu na parada e tornou-se eterna.
'Io che amo solo te', com Sergio Endrigo foi para o 1o. lugar absoluto em março de 1964, sendo derrubado da 1a. posição por 'Datemi un martello' em junho.  Note que a RCA utilizou a capa de 'Se le cose stanno così', que versa justamente sobre o outono e suas folhas caídas, e colou o título 'Io che amo solo te' à esquerda. Um macête que fêz do compacto brasileiro um disco de sucessos de dois lados.
'Se mi vuoi lasciare' com Michele foi sucesso total nas radios de São Paulo e o compacto vendeu bastante. Além de vender como 'single', ambos lados faziam parte da coletânea 'Gioventù', o LP mais vendido no país durante várias semanas.
Bobby Solo com a linda balada 'Una lacrima sul viso' punha a Chantecler na parada brasileira novamente.

Mas a grande sensação do ano foram as apresentações na TV Record de Rita Pavone em junho de 1964, quando conquistou o Brasil de norte a sul com sua verve e carisma. "Datemi un martello" foi o disco mais vendido do ano, com 'Io che amo solo te' com Sergio Endrigo vindo em 2o. lugar. A música Italiana reinava suprema junto com o cinema de lá também. 

1965

Esse sucesso quase que absoluto se consolidou em 1965 com a volta de Rita Pavone em apresentações pessoais no Teatro Record de São Paulo e inúmeros lançamentos discograficos. "Io che non vivo senza te", do Pino Donaggio, era uma "praga" no programa de calouros do Chacrinha, com quase metade dos calouros querendo interpretar essa canção de Donaggio. Bobby Solo bisou com 'Se piangi se ridi' e John Foster começou o ano com 'Amore scusami' em 1o. lugar.

'Lascia stà' [Deixa isso p'ra lá] e 'Sono andato via' [Fui andar por aí] com Ruperto Da Vinci aka  Hélio Ribeiro. 

A musica italiana fazia tanto sucesso, que Helio Ribeiro, um disc-jockey inovador de São Paulo, verteu para o italiano o samba 'Deixa isso p'ra lá', grande sucesso de Jair Rodrigues, que passou a se chamar 'Lascia stà'. No lado B do compacto que ele próprio gravou para a RGE verteu p'ro italiano o samba  'Diz que fui por aí', que Neyde Fraga e outros fizeram popular.

1966

Em 1966, nós, que mal sabíamos uma palavra do idioma de Dante dois anos antes, já articulávamos frases e até escrevíamos cartas para correspondentes [pen-pals] jovens que viviam na "matriz". As revistas jovens italianas Big e Giovani, traziam as ultimas da moda, musica, filmes e esportes. As revistas semanais como Oggi, Epoca, Gente, L’Europeo chegavam até nós com 2 ou 3 meses de atraso, mas isso pouco importava, pois nosso desejo de ler a imprensa italiana era "como estar lá" e nós "viajávamos na mayonese".

1966 também foi também o ano que os fã-clubes, principalmente os clubes de fãs da Rita Pavone 'estouraram' e começaram a pipocar por todas as partes do país. Bastava você enviar cartas com nome e endereço do FC para revistas como Manchete, Fatos & Fotos, Revista do Rock, Melodias, Intervalo etc. e choviam cartas, literalmente, de ávidos jovens de todo o Brasil querendo participar da euforia que era ser fã de uma cantora estrangeira que tinha 'algo' de libertário. Foi o ano que eu conheci Totó Faria, do Fã-Clube Rita Pavone, Fabio Miranda, do Rita Pavone Fã-Clube, Lêda Gonçalves, do RPFC de Sorocaba e Silvia Paula Jentsch, da Vila Clementino, que por si própria já era um fã-clube.


Siamo pagliacci

Ho pianto, ho pianto tanto, lo so'
e' vero, io ti ho cercato, lo so'
ma ora che sei tornata pero'
mi spiace, ti devo dire di no!

Siamo pagliaci senza cuore perche'
vogliamo chi non abbiamo.
Siamo pagliacci un po' cattivi perche'
vogliamo solo chi non c'e', chi non c'e'.

Vorrei tu non piangessi per me
ma poi non apro bocca perche'
io so' cosa vuol dire per te
io so', io l'ho provato.


musica di Mogol & Lunero
canta: Ornella Vanoni.

Revista do Rádio de 20 Junho 1964;  Anselmo Domingos, editor da RR, explica como a Musica Italiana moderna tomou de assalto o Brasil. Muito boa análise, principalmente depois de passados tantas décadas. Anselmo acertou em vários pontos, mas, infelizmente errou quando apostou que a musica norte-americana teria 'acabado'. Ela voltou, com mais ímpeto ainda a partir de 1968, ajudada pela Ditadura Militar que se alinhou à política dos EEUU em todo e qualquer ramo de atividade, seja militar ou artística.

Italianas - A época é decididamente das músicas italianas. Que tomaram conta do mercado e, consequentemente, tem o melhor quinhão na programação das nossas emissoras. E a que se deve essa influência avassaladora? Certamente a própria tonalidade das músicas italianas, que são alegres, românticas, engraçadas, tristes, mas, antes de tudo, agradáveis. Feitas com espírito e bom gosto. E para sua difusão tem colaborado os festivais de músicas que anualmente são realizados na Itália, além do próprio cinema peninsular, que hoje é um dos mais sérios rivais do cinema norte-americano no Brasil. Tudo isso ajuda a Itália a difundir sua música no exterior e criar ídolos.

Porque a verdade é que em pouco tempo a Itália fabricou uma porção de ídolos que ameaçam a posição de muito figurão solidamente instalado na preferência dos fãs. Aí estão Rita PavonePeppino di CapriEmilio PericoliSergio EndrigoNico FidencoDomenico Modugno e tantos outros, uns com mais prestígio, outros aflorando decididamente para o sucesso consagrador. A grande vitóra da musica italiana está no fato de ter conquistado a preferência do grande público sem que para isso tenha sido feito um trabalho de monta, uma campanha de envergadura para o lançamento de produções, como sabem fazer os norte-americanos.

Enquanto as músicas italianas vão em escala ascendente, nota-se que o prestígio da música norte-americana junto à massa já não é o mesmo de antigamente. Cartazes como Paul Anka e Elvis Presley habituados a estarem na crista do sucesso já não alcançam o êxito de antes. E Ricky Nelson, cantor que despontou como fadado a ter bela carreira desapareceu como por encanto, enquanto não se ouve falar mais de Pat Boone, efetivamente um bom cantor. Por outro lado, no Brasil, o público de Frank Sinatra se reduz, com o passar do tempo, a um grupo de puristas. A hora, devemos reconhecer, é da música italiana. E o será por muito tempo enquanto os outros gêneros musicais continuarem a perder terreno. Anselmo Domingos.

5 December 1965 - 'Correio da Manhã' - Canal 6, TV Tupi do Rio de Janeiro começa a exibir 'Studio Uno' as sextas-feiras as 21:30. O video-tape italiano era ligeiramente modificado, extirpando-se as falas longas em italiano que não seriam entendidas pelo público brasileiro, ficando as interpretações musicais em primeiro plano. Em São Paulo, o mesmo 'Studio Uno' era exibido nas quarta-feiras no horário nobre. Veja a lista dos discos mais vendidos no Rio de Janeiro em início de Dezembro 1965: 'Io che non vivo senza te' com Pino Donaggio em 1o. lugar, seguido por 'Il mondo' com Jimmy Fontana e 'Il silenzio' com o trompetista Nini Rosso na 4a. posição. Os italianos dominavam o Hit Parade nacional. 

Monday, May 28, 2012

Italian pop music heaven - 1958-1967


Caterina Caselli in 1966.

A musica popular italiana mudou muito com o aparecimento do "rock and roll" norte-americano na Italia circa 1957 e já em 1958 fazia-se notar a grande influência yankee principalmente na voz de Tony Dallara em "Come prima", apresentada em San Remo '58 (o mesmo ano de "Volare" de Modugno), inspirada nas baladas dos Platters, grupo negro de rhythm & blues. Neste ano a Italia viu a invasão do rock americano nas pessoas de Elvis Presley, Paul Anka e Connie Francis.

Os cantores Italianos identificados com o rock eram chamados pejorativamente de 'urlatori' (gritadores) pela crítica jornalista conservadora. Tony Dallara era acusado de imitar Tony Williams, o crooner dos Platters. É irônico que os proprios Platters gravariam uma versão em Inglês de "Come prima" (For the first time) em seu album "Flying Platters" ainda em 1958. Note que no mesmo album aparece "It’s raining outside" (Chóve lá fora) do brasileiro Tito Madi.

1959 foi praticamente uma continuação de 1958, com Modugno vencendo San Remo novamente com "Piove" (Ciao ciao bambina). The Platters ficam 11 semanas em 1º lugar com "Smoke gets in your eyes", Paul Anka retorna com "Put your head on my shoulders", agora competindo com Neil Sedaka com "Oh Carol" e o aparecimento de Adriano Celentano, que viria a ser o "Roberto Carlos Italiano" com "Il tuo bacio è come un rock", que o "tio" Teddy Reno se apropriou e cantou durante suas tournees pela America do Sul.

Em 1960 surgem mais "urlatori" como Mina com "Tintarella di luna" - que se tornaria "Banho de lua", um mega-sucesso no Brasil numa versão super bem-bolada de Fred Jorge, cantada por Celly Campello, a rainha do rock nacional. Mina viria a se tornar a maior cantora popular do País durante do resto do século.


Peppino di Capri, um urlatore "rockeiro" de Napoli emplacou um 1º posto com "Nessuno al mondo". Todos esses se juntaram ao Tony Dallara, que ainda reinava supremo, tendo vencido San Remo 1960 com 'Romantica', uma rock-balada que poderia facilmente passar por 'versão' de sucesso americano, tanto que o taubateano Tony Campello gravou a versão 'Tu és romântica" em português.

Interessante que esses "urlatori" que surgiram em 1959 e 1960 seriam os cantores que dominariam a cena musical Italiana até práticamente o final do século; algo parecido aconteceu no Brasil no ano de 1966 com o surgimento de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia.

1961 foi o ano de Nico Fidenco com "Legata a un granello di sabbia", que viria a ser a primeira musica Italiana a fazer sucesso aqui no Brasil dois anos mais tarde (1963). Naquela época era comum se demorar tanto assim para um sucesso viajar de um país para outro. O interessante de "Legata" é que a canção foi desclassificada em San Remo e depois, re-lançada pela RCA Italiana, foi o disco mais vendido daquele ano, além de ter conquistado a Europa toda, tornando-se o primeiro disco italiano a atingir a cifra de 1 milhão vendidos. Isso mostra que esses festivais canoros podem errar redondamente.

Em 1961, "Al di là", defendida por Luciano Tajoli e Betty Curtis vence San Remo, mas 'não leva', pois o maior sucesso do Festival foi "24.000 baci" com  Adriano Celentano em dobradinha com Little Tony, um rock 'scatenato' (movimentado). "Al di là" iria ter que esperar Emilio Pericoli cantá-la em "Candelabro Italiano" (Rome Adventure) para fazer sucesso mundial, chegando ao 6º posto na parada da Billboard, fato nunca mais igualado por nenhum italiano, nem a própria Rita Pavone, que emplacaria "Remember me" num mero 26º posto em 1964.

Em 1962 o rock Italiano continua firme com Adriano Celentano e Peppino Di Capri. Tony Renis com sua 'Quando Quando Quando', não venceu San Remo, mas foi o maior sucesso, tanto na Italia quanto no resto do mundo. Parecia que San Remo sempre estava atrasada um ano. San Remo sempre acabava premiando quem vendera mais discos no ano anterior. 


Ornella Vanoni surge cantando "Senza fine", Edoardo Vianello com o rock "Guarda come dondolo"; Peppino Di Capri divide com Chubby Checker a honra de cantar "Let’s twist again". O twist reina na Península e no mundo. No finalzinho de 1962 surge o fenômeno Rita Pavone com "La partita di pallone".

Em 1963Tony Renis ganha o Festival di San Remo com "Uno per te", uma canção esquecível. San Remo continuava a premiar com atraso, dando o prêmio àquele que foi 'injustiçado' no ano anterior, mas que não era, necessariamente, o melhor no ano em curso. 


1963 foi ano de Rita Pavone, a maior sensação dos "urlatori" desde o surgimento deles em 1958. Logicamente Mina continuava a fazer sucesso, mas Rita era algo extremamente novo! Por falar em Mina, ela estava grávida e não pode fazer o "Studio Uno" daquele ano, e a novata Pavone foi chamada às pressas para substituí-la... e o resto é historia. 

1963 também foi o ano que o Cantagiro, uma competição realizada no verão, realmente se massificada. Olhe a foto abaixo, Peppino Di Capri, que acaba ganhando com 'Roberta', é dado um tratamento real na sua chegada a uma das cidades que estavam no itinerário do 'giro canoro'.


Peppino Di Capri num momento de glória no Cantagiro 1963, que ele vence com a lindíssima 'Roberta'.

Em 1964, o maior sucesso de San Remo é "Una lacrima sul viso", com o novato Bobby Solo, mas quem vence é (outra novata) Gigliola Cinquetti com "Non ho l’età". Rita nunca pisou em San Remo e tampouco o Gianni Morandi, que arrasou no verão de 64 com "In ginocchio da te". Nessa altura o mercador fonografico italiano era tão dinâmico que vários singles já tinham atingido a cifra de 1.000.000 de cópias vendidas - algo que demorou muito tempo ainda para acontecer na America Latina.

Me lembro que quando The Clevers retornaram da tournèe que fizeram acompanhando Rita Pavone no verão italiano de 1964, eles deram uma entrevista a um DJ paulista se dizendo 'encantados pois na Itália só havia musica jovem'... até os velhos cantavam "musica jovem". Olha os principais sucessos daquele ano na Peninsula:

1964

1. "Cin cin" e "La mia festa" - Richard Anthony;
2. "É l’uomo per me" e "Città vuota" - Mina;
3. "Con te sulla spiaggia" - Nico Fidenco;
4. "Ogni volta" - Paul Anka;
5. "Quando vedrai la mia ragazza" - Gene Pitney;

6. "Una lacrima sul viso" - Bobby Solo;
7. "Amore scusami" - John Foster, il cantante giornalista etc.

Em 1965 não dá outra: quem vence San Remo é o "injustiçado" do ano anterior, Bobby Solo, com "Se piangi, se ridi", só que a gravação de Mina (como sempre) é melhor que a original. Mina participou do Festival em 1960 e 1961 e nunca mais pôs os pés lá. Todo ano ela assistia a competição pela TV, marcava num caderninho as musicas que ela mais gostava, independente de serem classificadas ou não, ia para o estúdio da Ri-Fi e gravava uma ou duas. Assim foi com "E se domani", "Se tu non fossi qui" etc. 


Aliás, 1965 foi mais um ano de Mina, que comandou "Studio Uno" depois de um hiato com a gravidez de seu filho. Mina tem seu melhor ano com "Un anno d’amore", "E se domani", "L’ultima ocasione", "Ora o mai più", "Un bacio è troppo poco", a lindíssima "Soli" tema de encerramento do programa de TV e a bravissima "Brava" composta especialmente para ela pelo maestro Bruno Canfora  - mesmo autor de "Fortissimo" e "Quanto sei antipatico".

Em 1965 a Italia começa a se 'britanizar' com uma verdadeira "Invasão da Musica Inglesa". Os jovens italianos - i giovanissimi - não se contentavam somente com o rock local, mas queriam tambem o produto original! O original americano ou sua forma reciclada inglesa... e nas paradas de sucesso se ouviam Beatles ("Help", "I should have known better", "Yesterday"), Rolling Stones ("Satisfaction"), the Byrds ("Mr.Tambourine Man"), the Animals  ("The house of the rising sun") para citar apenas alguns.

Também acontecia o aparecimento dos conjuntos de rock Italianos chamados de "beat". Os primeiros foram I Ribelli, Equipe 84 e The Rokes, conjunto inglês que se fixou na Italia e cantavam em italiano. Havia um "night-club" em Roma chamado Club Piper onde essas novas 'sensações' se apresentavam. O movimento ‘Beat'’ era o que havia de mais vanguarda e avançado para essa nova juventude.

O Festival di San Remo é sempre realizado no inverno europeu, em fevereiro... e a grande sensação de 1966 foi Caterina Caselli, apresentada por Mike Bongiorno como "la versione feminile dei Beatles", e logo depois apelidada de "Casco d’Oro" porque seu cabelo era como se fosse um "casco" mesmo; uma cópia dos cabelos do Paul McCartney, tingidos de loiro... loirissimo...

Caterina se apresentou de botinhas até quase os joelhos... foi arrasador! Caselli tinha Atitude, apresentando-se com um conjunto "beat". Alem de "beat", Caterina Caselli - como Rita Pavone anteriormente - era francamente andrógina, embora a palavra ainda não fosse usada na época.

"Nessuno mi può giudicare" apresentada por Caselli (no Brasil foi vertida como "Ninguem me pode julgar" por Jerry Adriani) estourou nas paradas e "Casco d’Oro" era o que tinha de mais moderno e todo o resto era "passè", inclusive la "nostra Rita", que no 3º ano de sua carreira já tinha se tornado "ultrapassada". Sim, o começo da derrocada da Rita foi essa mudança de "consciência" dei giovanissimi.


Caterina Caselli tinha 'atitude'.

Em 1967, tive a chance de conhecer um jovem italiano que havia imigrado para São Paulo e era "modernissimo". Ele só tinha discos "beat" na sua coleção de 45 rpm! Rita Pavone nem pensar! Ele só falava, pensava e agia "beat"... "Beat" era um estado-de-espirito. I giovanissimi só pensavam em Carnaby Street, Mary Quaint, a inventora da "mini-gonna" (mini-skirt). Nas paginas da revista "Giovani" haviam concursos e o premio para os vencedores era "un viaggio a Londra" para conhecer Carnaby Street. "Londra, Londra" muito antes do Caetano Veloso fazer "London, London". 

Veja só o panorama Italiano em 1966:

1."Bang bang" e "Resta" - Equipe 84;
2. "Tema" - I Giganti – super "beat" os rapazes, com barbas por fazer, muito óculos escuros, ternos super bem feitos, cabelos bem na moda, e muita "pose"... e bóte "pose" aí]
3. "Michelle", "We can work it out", "Paperback writer" e "Yellow submarine" - i Beatles;
4. "Che colpa abbiamo noi" – "È la pioggia che và" - i Rokes;
5. "These boots are made for walking" - Nancy Sinatra;
6. "Paint it black" e "Con le mie lacrime" - "As tears go by" em Italiano con i Rolling Stones;
7. "Barbara Ann" - i Beach Boys;
8. "Sunny afternoon" con i Kinks.

Você vê pelo panorama que a Italia "giovanissima" havia mudado. No entanto, 1966 não foi um ano ruim para Rita Pavone que apresentou 'Studio Uno '66' lançando 'Fortissimo', um clássico instantâneo. Rita tinha um publico cativo alem de estar presente na "telinha" em horario-nobre quando na Italia só haviam duas emissoras de TV, ambas do governo: RAI Uno e RAI Due! Mas os prospectos de Rita não eram grandes, pois o publico jovem estava mudando rapidamente e nossa "Pintadinha" estava sentada em cima do monte igual ao "Fool on the hill" dos Beatles - keeping perfectly still – ficando parada totalmente!

Enquanto isso, Caterina Caselli continuava com sucessos como "L’uomo d’oro" (talvez lembrando-se de seu próprio cabelo de ouro), "Perdono" e "Cento giorni", todos em 1966. Seu LP foi lançado no Brasil, mas por aqui a musica Italiana já estava dando seu "ciao", pois a Jovem Guarda brasileira dominava os jovens locais! Alem do mais, só quem acompanhava a 'cena italiana' através das revistas importadas é que sabia o que estava acontecendo lá na Itália... e esse público aqui que era cada vez menor!

1967 começaria com o suicídio de Luigi Tenco em pleno Festival di San Remo. Parecia que a Musica Italiana morrera junto com Luigi Tenco. "Non pensare a me" com Claudio Villa, a vencedora do certame, era um anti-climax, pois Villa representava tudo do que era "velho e carcomido" na musica leggera italiana. Rita Pavone gravou  "Gira gira", versão da magnífica "Reach out – I’ll be there" dos Four Tops e ganhou o Cantagiro com "Questo nostro amore", que era a "sua musica com o Teddy", mas isso já é outra história, que faria parte de um capítulo especial que eu entitularia de  "A derrocada de Rita Pavone & seu Empresário".

FINE

Só a título de curiosidade: em 1967 eu conheci um rapaz italiano, que morava na Rua Caterina Braida, na Moóca (era assim que ele grafava). ele tinha se mudado para o Brasil naquele ano e falava das "maravilhas" do "movimento beat" e me mostrava sua vasta coleção de 45 giri. O programa "Jovem Guarda" era o grande sucesso por aqui desde agosto de 1965. Eu sentia que ele desprezava a musica jovem brasileira embora nunca tenha expressado isso em palavras, pois ele era um "gentleman" italiano. Certo sábado à tarde, eu lhe perguntei se havia alguem ou alguma musica brasileira que ele gostava. Ele pensou longamente e respondeu que de toda aquela "jovem guarda" havia apenas uma musica que era "BEAT"... e essa música era 'É papo firme', o lado B de "Esqueça" (Forget him), cantado pelo Roberto Carlos. Interessante, não?

Meu amigo Italiano nunca falou mal da Rita Pavone, mas ele não tinha um disco siquer da "Pintadinha". Ele era um típico rapaz "beat" ou diria, un ragazzo beat! A familia dele odiava morar no Brasil (pudera!); mal tinham chegado e já estavam de malas prontas para voltar para lá... e (pasme!) me convidaram para ir junto! Só que no ano de 1968 eu teria que servir o Exército e eles se foram sem mim... acabei perdendo o contato com eles... e meu grande "sogno di andarmene in Italia" foi por água abaixo para sempre!

Mas eu não me fiz de rogado e três anos mais tarde fui embora para a "verdadeira" metrópole... New York ou Nuova York ou Nova Iorque! Abusado, não? Paguei tudo com lagrimas de ouro, mas como diz o velho ditado Inglês "No pain, no gain!" (sem dor não há avanço).

'A mamata' (La cuccagna) filme com direção de Luciano Salce, que viveu em São Paulo no pós-Guerra, tendo trabalhado na Cia. Cinematográfica Vera Cruz e no T.B.C. (Teatro Brasileiro de Comedia) tinha o cantor Luigi Tenco - completamente desconhecido no Brasil em 23 Fevereiro 1964 - no principal papel masculino. 


Luigi Tenco, Donatella Turri & diretor Luciano Salce na estreia de 'La cuccagna' in 1962.


Luigi Tenco em tempos mais felizes.


o corpo inerte de Luigi Tenco na morgue de San Remo em Janeiro de 1967. A moderna musica italiana morria alí.


'Ciao amore ciao', Luigi Tenco.


'Che colpa abbiamo noi?' com The Rokes tinha toda a simpatia da chamada geração 'beat' que via nos inglêses a 'salvação' da mesmice peninsular. I Rokes eram expatriados inglêses trazidos para a Italia em 1963 por Teddy Reno para acompanhar Rita Pavone em sua tournee de verão. Radicaram-se em Roma e 3 anos mais tarde já conseguiam suplantar Pavone apelando a uma novíssima geração.

'Ascolta nel vento', 'Che colpa abbimao noi', 'È la pioggia che va' foram todas lançadas nas famosas coletâneas da RCA Victor. No entanto a única vêz que The Rokes fizeram realmente sucesso entre os brasileiros foi com 'Piangi con me' em 1967.


Equipe 84 apelava às mentes e corações dos 'giovanissimi'. Eles imitavam em tudo os inglêses e conseguiam produzir um som agradável, principalmente pela altissima voz peculiar de Maurizio Vandelli, o lider. A Chantecler lançou o LP, que meu amigo Walter prontamente comprou e nós ouvíamos incessantemente, mas como uma ou duas andorinhas não fazem verão, poderia se dizer que a Equipe 84 nunca foi conhecida no Brasil exceto por alguns aficcionados.

Compilation albums in South America

ARGENTINA


As coletâneas de sucessos italianos feitas na Argentina eram bem mais caprichadas. Nota-se pela capa dura dos LPs quando aqui no Brasil a pobreza e desleixo na confecção das capas já era 'de rigueur'. Note também que a RCA Argentina procurava incluir Paul Anka e Neil Sedaka, ídolos jovens do final dos anos 50, que entre 1962 e 1965 gravaram muito na Itália. A RCA do Brasil parecia uma entidade sem cérebro. Tanto que no setor nacional ela foi perdendo terreno para a Columbia [CBS], Odeon e até para as nacionais como Chantecler e Continental.

Outro facto curioso é o costume que los Argentinos tem de traduzir os títulos originais para o idioma castelhano. Veja que gozado ficou a lista de músicas dessa coletânea:

1.  Mira como me balanceo [Guarda come dondolo] - Edoardo Vianello
2.  So long! [ué, essa não traduziram, pois afinal, não é italiano, mas inglês] - Rosy
3.  Se mi perderai [será que deu a louca no departamento de tradução?] - Nico Fidenco
4.  A mi edad [Alla mia età] - Rita Pavone
5.  Que hago con el Latin? [Che me ne faccio del Latino?] - Gianni Morandi
6.  Tus caprichitos [I tuoi capricci; título original em inglês: 'Look inside your heart'] - Neil Sedaka

1.  Corazón [Cuore; Heart] - Rita Pavone
2.  Abbronzatissima [esqueceram de traduzir] - Edoardo Vianello
3.  Se mi vuoi lasciare [o tradutor dormiu no ponto] - Michele
4.  Sabor de sal [Sapore di sale] - Gino Paoli
5.  El baile del ladrillo [Il ballo del mattone] - Rita Pavone
6.  Un ricordo per te [o tradutor estava zangado pois ganha muito pouco] - Paul Anka

CHILE


Essa coletânea chilena Extra! é bem híbrida. São dez músicas cantadas em catelhano e apenas duas em italiano, embora os títulos enganem, pois escritos em espanhol.

1.  Ojalá esta noche - versão de 'Meglio stasera' - cantada por Bambi
2.  Hoy me han dicho que... - versão de 'M' hanno detto che' - com Larry Wilson
3.  Un niño llamado John - com Trio Inspiracion
4.  Quiero ser tu primer amor - Rodolfo Alvarado
5.  Felicidades para tí - na verdade é 'Auguri a te' - com Rita Pavone cantando em italiano.
6.  Poema 14 - Arturo Gatica
7.  La pareja - com Chico Novarro [sucesso argentino]

1.  Rio de Sueños - Ginette Acevedo
2.  Melodia y amor - Los Dolares
3.  En la cima de la montaña - é 'Sul cucuzzolo' com Edoardo Vianello em italiano.
4.  Cuando veo que todos se aman - Sussy Veccky
5.  Rosita - Alan y sus Bates
6.  Me permite - Palito Ortega [sucesso argentino]
7.  Amor oculto - Roberto Cavajal

Verão e Inverno (Summer & Winter)

sucessos do verão de 1963 

Contrariamente do que se observa nos Trópicos, os países temperados do Hemisfério Norte, em nosso caso vamos nos ater à Itália, tem toda suas vidas norteadas pelas diferentes estações climáticas.  Verão e  inverno são celebrados diferentemente. 

Para nós, que vivemos gloriosamente nos Trópicos, as palavras Primavera, Verão, Outono e Inverno não tem a mesma conotação que nos países temperados. Nós, mal prestamos atenção nas mudanças das estações, ao passo que lá tudo se torna uma questão de vida ou morte. As pessoas programam suas vidas em torno desses quatro conceitos. 

O calendário escolar é pautado pelas estações. O ano letivo começa em setembro (outono), e termina no final da primavera do ano seguinte (maio-junho) e as férias acontecem durante o glorioso verão (julho, agosto e parte de setembro). Em conversas cotidianas é comum se ouvir pessoas dizendo:  “No verão de 1962 eu fiz isso ou aquilo.”  

Por que o mês de maio é o 'mês das noivas'? Porque as pessoas, como os animais, gostam de se acasalar na primavera.

O auge do Verão na Península é o dia 15 de agosto, um feriado nacional chamado Ferragosto.  O Gianni Morandi tem uma musica (muito bonita, por sinal) chamada “Notte di Ferragosto”. Por outro lado, o auge cultural do Inverno acontece durante os festejos natalinos.



sucessos do verão de 1964

Nos tempos antigos o Inverno era época de “hibernação”; as pessoas, praticamente, 'fingiam' que viviam; sabiam que tinham que sobreviver de alguma maneira, pois dias melhores viriam; eram grandes os sofrimentos, pois familias que não tinham tido uma boa safra, talvez não agüentassem até a primavera. Muitas ficavam debilitadas, sendo que as mais velhas e fracas simplesmente morriam. Depois da Revolução Industrial e consequente instalação de eletricidade, aquecedores em casa, e o aparecimento do radio e TV, o Inverno se tornou a estação mais cultural pois as pessoas ficam em casa lendo livros, revistas, jornais ou escutando programas de radio e assistindo TV. É a época que as emissoras de radio e TV mais ganham dinheiro pois tem uma audiência certa; ninguém sai de casa para se congelar na neve lá fóra. Para a industria do entretenimento esse é o grande momento; por isso a programação de TVs começam todas em meados de setembro  e 'esquentam' em novembro, dezembro e janeiro. 

MUSICA E TELEVISÃO 

Os grandes shows de TV Italianos como “Studio Uno”, “Alta Pressione” (1962), Partitissima”, “Canzonissima”, “Festival di San Remo”, “Il giornalino di Giamburrasca” (1964-1965), “Stasera Rita” (1965) etc. foram todos  transmitidos no outono/inverno - de outubro a março. Até Rita Pavone surgiu no dia 2 setembro 1962, quando ganhou o “Festival dos Desconhecidos”. Ainda em setembro gravou “La partita di pallone" e no final de novembro já estava em 1º lugar;  antes do Natal de 1962 ela já era conhecida no país inteiro, tendo participado de “Alta Pressione”, programa dedicado à juventude em horario nobre, que seria um “aperitivo”, pois o “prato principal” era “Studio Uno”, o grande musical da TV Italiana, que todo ano tem uma apresentadora diferente, sendo essa estrela, geralmente, uma cantora que esteja em voga no momento. No inverno 1962/1963 era o grande momento de Mina, que devido a uma gravidêz inesperada teve que abandonar a idéia na ultima hora, e a RAI, meio sem alternativa, apostou na novata Rita Pavone para substituí-la. Hallelluya! Alem de estar dominando as ondas do ar, Rita lançou  uma pérola musical chamada  “Come te non c’è nessuno”, que foi p’ro 1º lugar instantâneamente e logo em seguida “Alla mia età”, um lamento juvenil que tb. chegou ao píncaro da parada. De simples desconhecida no outono de 1962, Rita “dominou” o inverno e quando a primavera de 1963 chegou “Cuore” estava no topo da parada e Rita se torna “unanimidade nacional”.

SUCESSOS DE VERÃO

Para entendermos a proliferação de “musicas-de-verão”, também chamadas “musicas-de-balneário”, temos que ver um pouco da história da Itália pós-Guerra.  Derrotado o Fascismo de Mussolini em 1945, os Estados Unidos injetou milhões de dólares na Península [através do chamado Plano Marshall],  pois morriam de mêdo que os comunistas Iialianos, que haviam lutado contra Mussolini e seus capangas, vencessem as eleições.  

Com a injeção dos dolares norte-americanos o parque industrial italiano - Fiat, Olivetti, Lambretta etc. - foi revigorado com essa  infusão  maciça de capital e já no final da década de 50 havia um proletariado imenso com bom poder aquisitivo. As fabricas construíam colônias-de-férias à beira mar para seus operários e durante o alto verão [agosto] as firmas davam ferias-coletivas a seus empregados e cidades Italianas inteiras se esvaziavam [vide canção “Città vuota” da Mina].  Todo mundo ia passar suas férias nas colônias.  E junto levavam suas eletrolas, victrolas portáteis chamadas de “mangia-dishi” [come disco].  


o famoso 'mangia-dischi' (come-disco)

o 'come-disco' por dentro... antes do aparecimento do grav. cassette.

CANTAGIRO

Durante esse período as fábricas de discos começaram a lançar musicas falando de praia, namoros que duravam somente o tempo das férias, insolação, por de sol, bailes à beira mar, etc.  E aí se formou essa verdadeira industria que são os sucessos de Verão [canzone estiva]. A Itália inteira se transformava numa “colonia de férias”.  Surgiram concursos de musica de Verão (“Un disco per l’Estate” – Um disco para o Verão) e em 1962, imitando o giro de bicicletas da França (Tour de France), surgiu um “giro musical” de Verão chamado “Cantagiro” (giro de cantores), onde uma caravana de cantores divididos em Girone A (profissionais) e Girone B (cantores iniciantes) e a partir de 1966, Girone C, só para conjuntos musicais, faziam uma peregrinação por 30 cidades Italianas de Norte a Sul. Durante essas apresentações os cantores eram votados pela população e o mais popular ganhava o certame na apresentação final. O “Cantagiro” foi um sucesso instantâneo e ficou tão grande, que em 1965 - ano que Rita Pavone venceu com “Lui” - teve apresentações também em Moscou, Viena e Frankfurt.

Para os cantores, o Verão era uma mina de ouro, pois tinham emprego garantido.  Os dias de Verão são enormes em países temperados;  em certas regiões mais à Norte, a noite só acontece depois das 21 ou 22 horas, sendo que o dia é aproveitado ao máximo. E a rapaziada sabia que a noite havia sempre um show de algum artista jovem.  Por isso que essa época é importante para os cantores, gravadoras, etc. Para exemplificar uma típica “canzone estiva” (musica de Verão) vejamos “Son finite le vacanze” gravada por Rita em 1963 para seu 2º álbum “Non è facile avere 18 anni”.


SON  FINITE   LE   VACANZE                      AS FÉRIAS TERMINARAM 
 
Son finite le vacanze                                      As férias terminaram
Per fortuna, son finite, davvero                         sorte, elas terminaram mesmo
Ma noiavo da morire                                       eu já não aguentava mais
Finalmente son tornata da te                           finalmente voltei para você

Col sole un pò sbiadito ci rivedremo ancora      Com o sol mais fraco nos veremos novamente
E col mia primavera mi dirà:                            e com minha primavera me dirá:
“Uscia-usciamo questa sera”                           'vamos sair hoje a noite”
ma questa volta, amore, io ti dirò di sì              mas desta vez, meu bem, eu vou dizer “sim”
e sai perchè, non posso fare ammeno di te       e v. sabe que eu não posso lhe desprezar

Son finite le vacanze ...                               As férias terminaram ...

Passavo tutto il giorno colla mia comitiva         Eu passava o dia inteiro com o meu grupo
E quando cominciava ad imbrunir                    e quando começava a entardecer
Resta- restavo sempre sola                             ficava sempre sosinha
Con tutti i miei pensieri io mi chiudevo in me    com meus pensamentos, me fechava em mim
Perchè così imaginavo di trovarmi con te          porque assim eu imaginava estar com você.

Musica de Pelleschi 
letra de Carlo Alberto Rossi


Então ai está configurada a situação terrível da mocinha que foi obrigada a ir com a familia (irmãos e pais) a uma colônia de férias durante o verão, deixando o namoradinho em Turim, Milão, Florença ou Roma. Coitada! Ficava o dia inteiro “bodeada”, esperando a noite chegar para ficar pensando no amado que ficara na cidade, ou quem sabe, fora também para alguma outra colonia junto com os pais dele. Eu acho esse texto uma pérola de “cultura popular”. Carlo Alberto Rossi era um “paroliere” muito inspirado. Ah, quando ela diz, na 2ª linha:  “col sole un pò sbiadito ci rivedremo ancora”... isso quer dizer que na volta dela para sua cidade, o sol já vai estar “fraco”... isso é, lá por Setembro o sol já começa a “abandonar” o Hemisfério Norte para “voltar” para o Hemisfério Sul.

A partir de 1945, com a injeção maciça de capital do Plano Marshall (enquanto a Guerra Fria comia solta), a Itália ia de vento em pôpa. Já nos anos 1950s, os norte-americanos descobriram que fazer filmes nos estúdios da Cinecittà - imensos estúdios cinematográficos construídos nos tempos do Fascismo de Mussolini - saía mais barato que fazê-los em Hollywood e de-repente Roma tornou-se uma Hollywood-no-Mediterrâneo, com super produções tipo “Ben-Hur” (Oscar de 1959) sendo feitas por lá. “Cleopatra” (1963), o filme mais caro do mundo (quase levou a XX Century Fox à falência) também foi rodado na Cidade Eterna. Roma fervilhava com o romance de Liz Taylor & Richard Burton. O próprio cinema italiano se consolidou e nos anos 1960s fazia sucesso no mundo inteiro com diretores de peso como Fellini (“La dolce vita”), Vittorio de Sica, Rossellini, Visconti etc.

E as crianças nascidas no pós-guerra tornavam-se jovens, que compravam cada vez mais discos.  O mercado fonográfico Italiano era um dos maiores do mundo, depois dos EEUU e Japão. Em 1964 “Una lacrima sul viso” com Bobby Solo vendeu a cifra de 1 milhão, nunca antes atingida, embora a própria Rita Pavone vendesse uma base de  800,000 discos de cada sucesso seu – numeros astronômicos para a época. A Itália vivia seu apogeu na decada de ’60.  Alemanha, França, Benelux e Itália abriam suas fronteiras aduaneiras e o Mercado Comum Europeu [que futuramente seria um gigante] começava a existir.  Vamos a uma lista de sucessos de Verão:

1. Città vuota  (Cidade vazia)  -  Mina – fenômeno de esvaziamento das cidades no Verão
2. Viene al mare (Venha ao mar) – La Cricca convidam todos a irem ao mar.
3. Abbronzattissima  - Edoardo Vianello comenta sobre os excessos do bronzeamento.
4. Con te sulla spiaggia  (Na praia contigo) – Nico Fidenco faz beicinho e diz que esse ano não irá à praia com  a namorada, pois ela não o tratou bem no ano anterior.
5. La cabina -  Gianni Meccia observa uma moça saindo da cabina para deitar-se ao sol.
6. Sapore di sale (Sabor de sal) – Gino Paoli compôs o maior clássico de verão...
7. Sulla sabbia (Sobre a areia) – Pino Donaggio – super inspirado esse cantor maestro.
8. Legata a un granello de sabbia (Presa a um grãozinho de areia) – Nico Fidenco – fantasia do Nico de prender seu objeto amoroso em um “grãozinho de areia”. Um “soft” sado-masoquismo?
9. Bikini e tamouré – Tony Renis -  Biquine & uma dança dos Mares do Sul; hit de 1963.
10. Notte di Ferragosto  -  Gianni Morandi – musica dramática de Morandi, onde tudo está quente: a praia, o mar, ela e ele. Você sente o sufoco na orquestração e interpretação. 



ah ah Abbronzadissima... sotto i raggi del sole...


mesma garôta aparece em anúncio de bronzeador e na capa do 45 rpm 'Abbronzatissima'. 

Poderíamos continuar com essa lista “ad infinitum”, pois todo artista que se prezasse tinha um “sucesso de verão” e outro de “Iiverno”. Vejamos a letra de “La cabina” de Gianni Meccia, que saiu no LP “Benissimo” de 1965 e em compacto-simples aqui no Brasil e fez um relativo sucesso. 

    

Mais um sucesso “balneário” do Rossi. Meccia também era ás em sucessos de Verão. E assim a Classe Operária vivia seu paraíso la na própria Península. Sempre que penso na Itália daquele tempo, eu penso nas Fotonovelas que lia nas revista “Capricho”, “Ilusão” e “Grande Hotel”, que eram todas traduções de originais Italianos.  O dono da Editora Abril, o Civita, que era um Judeu vindo da Itália para fazer fortuna na America do Sul, simplesmente trazia as revistas Italianas, apagava o balãozinho escrito em Italiano e pagava um empregado para re-escreve-lo em Português, para deleite de milhões de jovencitas brasileiras do Oiapóque ao Chuí. Quem não passou horas lendo aqueles doces romances nos anos ’60? 



'Presa a um grão de areia' com Nico Fidenco.



'Con te sulla spiaggia' (Contigo na praia] era parte do programa 'Un disco per l'estate' (Um disco para o Verão) realizado anualmente pela radio da RAI.

Antes de passarmos ao assunto “Inverno”, vamos a mais uma lista de “successi estivi”:

1. Si fa sera – Gianni Morandi – a noite cai na praia quente e os amantes se esbaldam.
2. Caldo (Quente) – Ornella Vanoni
3. Tintarella di luna (Bronzeado de lua) – Mina – aqui ao invés do sol escaldante, a donzela quer ficar branquinha e troca o sol pela lua, fazendo companhia aos gatos nos telhados à noite.
4. Era d’estate (Era verão) – Sergio Endrigo faz reminiscências sobre o verão passado...
5. La dolce estate (O doce verão) – Sergio Endrigo; note que verão é de gênero feminino
6. L’esercito del surf (O exército do surf) – Catherine Spaak, cantora & atriz belga canta em italiano. Wanderléa gravou a versão em nosso país.
7. Stessa spiaggia, stesso mare (Mesma praia, mesmo mar) – Mina - Meire Pavão gravou versão na Chantecler.
8. Un bucco nella sabbia (Um furo na areia) – Mina
9. Sole magico di luglio (Sol magico de julho) – Gianni Meccia
10. Nel sole (No sol) – Al Bano grita à vontade em seu maior sucesso.

Mas a Itália também tinha seu lado invernal. Cortina D’Ampezzo, fica na região dos Alpes Italianos– as chamadas montanhas Dolomitas – foi palco das Olimpíadas de Inverno de 1956 – apenas 9 anos após a derrota da Itália na II Guerra.  Note que os norte-americanos não perdiam tempo em  “promover” a Itália (antiga inimiga e derrotada). Justamente essa região é de onde vieram meus avós maternos, mas quando de lá sairam, em 1888, era uma região pobre. De pobre nos anos 1880, ficou super-rica a partir dos anos 50. Cortina, como é chamada, é freqüentada pela classe domindante européia. O cineasta britânico Edward Blake filmou o clássico “The Pink Panther” (“A pantera cor-de-rosa”) lá no inverno de 1963 tendo Claudia Cardinalle como estrêla. 


Embora o inverno também tenha seu charme nos teleféricos [seggiovia], skiis [sci], e casas Alpinas, não é tão popular entre a Massa Operária, pois é, óbviamente, bem mais caro. Mas assim mesmo você encontra “sucessos de Inverno” no Hit Parade Italiano. Vejamos os mais famosos: 

1. Sul cucuzzolo della montagna (No topo da montanha) – Rita Pavone
2. Sempre più su  (Cada vez mais alto) -  Rita Pavone (do filme “Não brinque com o Mosquito”, que foi filmado inteiramente no Inverno – com neve para todo lado).
3. Bianco Natale (Natal Branco) – Rita Pavone – novamente neve por todo lado.
4. Se le cose stanno così (Se as coisas estão assim) – Sergio Endrigo, compositor que prefere as estações 'tristes'; bastante pessimista em seus relacionamentos amorosos – veja a frase: “l’ottobre era fatto più freddo, fra noi più niente da dire” – outubro estava mais frio que o normal e entre nós nada mais a dizer.
5. Aria di neve (Ar de neve) – Sergio Endrigo compara o amor ao frio, gelo e geada.
6. Le notti lunghe (As noites longas) – Adriano Celentano
7. Siamo due esquimesi (Somos dois esquimós) – Edoardo Vianello fazendo suas gracinhas tanto no verão como no inverno.
8. Passione (Paixão) – Rita Pavone – não seria uma tipica musica de Inverno, já que é Napolitana, mas há a parte que ela reza a Madonna da Neve, para que passe sua febre; “Nossa Senhora da Neve” contraposta à “febre que queima a suplicante”!  Uma figura poética bem interessante.

Poderíamos continuar a contar os sucessos, que embora em menor número que os “estivi”, assim mesmo existem à granel, mas vamos ficando por aqui, pois nosso objetivo era mostrar o contraponto entre verão e inverno na Península Itálica. 

L A    C A B I N A                                                 A   C A B I N A

Dietro la mia cabina vedo due gambe al sole     Atrás de minha cabina vejo 2 pernas ao sol
Sul corpo c’è un bikini, sul viso un giornale       sobre o corpo 1 biquini, sobre o rosto 1 jornal

Ti vengo più vicino perchè lo sai che t’amo        Chego mais perto de ti, pq. v. sabe que te amo
Tu tieni gli occhi chiusi e non t’accorgi di me     v. de olhos fechados não liga p'ra mim

E prendo un pugno di sabbia                             E pego um pouco de areia
E poi lo lascio cadere                                       e deixo cair
E sulle tue braccia così sentirai                         e sobre os seus braços assim você sentirá
Un bacio caldo com’è il mio amore per te           um beijo quente como é o meu amor por você

Dietro la mia cabina vedo due gambe al sole       Atrás de minha cabina vejo 2 pernas ao sol
Tu tiene gli occhi chiusi e non t’accorgi di me      v. de olhos fechados não liga p'ra mim.

Musica:  Gianni Meccia